Seguidores

terça-feira, 17 de abril de 2012

Corte de Orelha e Cauda em Cães



Há dois anos, o Conselho Federal de Medicina Veterinária proibiu o corte de orelhas e caudas em cães. O procedimento não é considerado uma cirurgia necessária e é visto pelo conselho como uma mutilação, um crime contra o bem-estar do animal. No entanto, muitos proprietários, sem informação, e com consentimento de profissionais, continuam a fazer as cirurgias. Quem faz o alerta é o veterinário José Carlos Zanella, da Clínica Veterinária Planeta Bicho.
Segundo ele, o corte de orelhas e caudas não traz nenhum benefício aos animais, pelo contrário. A única justificativa que se tem é que essa prática aguce o ego dos donos — nada tem a ver com uma vontade canina. Se dependesse dos cães, eles ficariam com as orelhas naturais e com as caudas intactas. “Quem deseja a mudança nos animais são os proprietários, é pura questão de estética; nada mais”, salienta Zanella.
Pela lei do país, qualquer intervenção cirúrgica sem justificativa é considerada crime e quem pratica pode sofrer sanções na esfera cível. Aliás, tratando-se de estética o gosto também é duvidoso. Alguns cães perdem sua identidade natural e ficam com a imagem destorcida pelo corte das orelhas. É o caso clássico dos cães da raça pit bull. Com as orelhas caídas eles não parecem tão assustadores quanto ficam com as orelhas empinadas. “Os donos que recorrem a esse procedimento querem transformar o cão, lhe dar uma imagem que, na verdade, não é compatível a ele.”

Dores, doenças e infecções
A cirurgia propriamente dita não causa dor, porque o animal é sedado. Mas o pós-operatório é extremamente delicado, dói muito, afirma o veterinário. Além de causar dores e incômodos ao animal, a cirurgia das orelhas remove uma parte importante do aparelho auditivo, que tem a função de distinguir os sons. “O cão não consegue diferenciar um som mais grave de um agudo, por exemplo. Isso faz com que ele crie uma confusão e se torne, consequentemente, mais agressivo.”
Alguns cães podem ficar surdos, o que agrava ainda mais o comportamento. Quando não perdem totalmente a audição, ficam suscetíveis a infecções auditivas e sofrem muito mais de otites. “Temos o caso de um cão que foi submetido à cirurgia e agora o dono o traz aqui para tratar as infecções do ouvido. Um problema criado a partir do corte da orelha, um procedimento totalmente desnecessário”, salienta Zanella.

Falta informação
De acordo com o veterinário, somente no último mês, três pessoas apareceram na clínica pedindo que fosse feito o corte de orelha em seu cão. Saíram de lá sem fazer e mudaram de opinião. “É obrigação dos profissionais da área esclarecer aos proprietários sobre os malefícios da cirurgia aos animais. Muitas pessoas deixam a clínica com outra ideia sobre o assunto, bem diferente de quando chegaram.”
Mas por que essa onda de cortar as orelhas e caudas começou? Zanela conta que antigamente, nas rinhas de briga, essas eram as partes do corpo que mais sofriam com ferimentos. Para evitar sangramentos, os donos cortavam antes. Outro fator é a estética: algumas raças só teriam pedigree com as orelhas empinadas e cortadas. Hoje, isso mudou, e animais submetidos a essas cirurgias estão fora dos campeonatos oficiais.
Para o veterinário, a linha de pensamento é simples: o humano pode decidir sobre as mudanças estéticas em seu corpo, já o animal depende apenas do bom senso de seu dono. Vale ressaltar também que a imagem do cão está estritamente ligada a sua expressão. Cães com orelhas eretas passam um falso ar de agressividade, o que rotula a raça. “No entanto, como consequência dos problemas auditivos e da distorção dos sons, o cão pode mesmo se tornar mais violento. Sem entender o que ouve, ele se assusta mais fácil e reage para se defender.”
As raças que mais sofrem esse tipo de intervenção cirúrgica são: pit bull, doberman, dogue alemão e boxer.

“Se soubesse disso antes, não teria comprado”
O beltronense Douglas Batisti é o dono de um lindo dogue alemão de seis meses. Quando o adquiriu, pôde escolher entre um filhote com as orelhas e outro com as orelhas cortadas; optou pelo segundo. Hoje, depois de entender que a cirurgia em nada beneficia o cão, mudou de ideia. “Se fosse hoje, não compraria esse com a orelha cortada, justamente para não incentivar essa prática. A gente aprende depois que recebe as orientações. Hoje, sou totalmente contra.”
Rafael Marques é proprietário de dois pit bulls. O macho Burzum teve as orelhas cortadas quando era filhote, já a fêmea, Booma, não. A esposa de Rafael, Ana Cristina Marques, diz que se dependesse do marido, a fêmea teria passado pela cirurgia, mas ela não quis. “Gosto deles com as orelhas, parecem mais simpáticos”, brinca Ana.
Independente da opinião e gosto de cada pessoa, a prática no país é crime, porque é considerada pelo conselho de veterinária como uma mutilação, maus tratos contra o animal.

As cirurgias proibidas no Brasil
Conchectomia (corte de orelha): A cirurgia era realizada em filhotes entre 8 e 12 semanas de vida (às vezes até antes). O pós-cirúrgico era extremamente trabalhoso e muitas vezes doloroso. Eram necessários curativos regulares, durante várias semanas para atingir o objetivo – orelhas eretas. E o pior é que nem sempre o resultado final atingia as expectativas e as orelhas ficavam com o aspecto de “quebradas”.

Caudectomia (corte de cauda): A cauda é parte do animal e serve para o cachorro se comunicar e expressar diversas emoções. Não existe nenhuma indicação médica para esta cirurgia – a não ser que haja um tumor, por exemplo. Há casos de corte de cauda com o filhote recém-nascido, em casa, sem anestesia e sem nenhum cuidado de assepsia. Este procedimento oferece risco de infecção e muitas vezes o resultado é desastroso.



Matéria Retirada do Jornal de Beltrão

Nenhum comentário:

Postar um comentário